Fomento

R$ 200 milhões e um mapa: onde São Paulo decidiu que a ciência precisa chegar

Os 32 novos CCDs não são só volume de recurso. A lista dos aprovados revela quais problemas o governo paulista colocou na fila — e quem soube chegar antes.

Por 4 Trade Tech · 23 de setembro de 2026 · 6 min de leitura

Fomento · FAPESP · Política de C&T⏱ 4 minutos de leituraTipo de impacto: Estratégico e InstitucionalNewsletter 4 Trade Tech · Edição nº 05

Em 18 de setembro de 2026, a FAPESP anunciou os novos CCDs da FAPESP: 32 propostas selecionadas na quinta chamada do Programa Centros de Ciência para o Desenvolvimento, orçamento de até R$ 200 milhões. Na mesma rodada vieram cinco novos CEPIDs, com até R$ 10 milhões anuais cada na fase inicial.

O número dos novos CCDs da FAPESP circulou rápido. O que praticamente não circulou foi a lista dos aprovados — e é nela que está a informação útil. Cada linha traz um problema público específico, a secretaria que o assumiu e o grupo de pesquisa que chegou primeiro. É um mapa de demanda do Estado de São Paulo para os próximos cinco anos, publicado abertamente e pouco lido.

Infográfico do mapa da inovação em São Paulo: R$ 400 milhões mobilizados, 32 CCDs, 5 CEPIDs, concentração institucional e prioridades por secretaria
O desenho completo da rodada: recurso, contrapartida, sedes e prioridades do Estado.

1O que foi anunciado

Os novos CCDs da FAPESP e a parceria obrigatória com o poder público

Os novos CCDs da FAPESP são núcleos de pesquisa criados em parceria obrigatória com um ente público — secretaria estadual, municipal ou federal — que entra como parceiro cofinanciador. Cada projeto pode solicitar até R$ 2 milhões por ano, por até cinco anos.

Há um detalhe pouco comentado que muda a escala do programa.

As instituições participantes precisam aportar contrapartida financeira ou econômica equivalente ao valor solicitado à FAPESP. Na prática, os R$ 200 milhões anunciados são a metade da mesa: o volume total mobilizado é da ordem de R$ 400 milhões.

Os cinco CEPIDs seguem outra lógica: pesquisa de longo prazo em Ciências da Saúde, Biológicas, Agronomia e Veterinária, com financiamento de até R$ 10 milhões anuais na fase inicial de cinco anos e possibilidade de apoio por até 11 anos. Juntam-se aos 12 centros já em operação.

2A leitura que o número esconde

Três recortes da lista dizem mais do que o total

Mapa de calor setorial dos 32 CCDs: 8 centros ligados à Saúde, 4 à Agricultura, 3 ao Desenvolvimento Econômico e 17 pulverizados
Saúde concentra o dobro de centros da segunda colocada.

Recorte 1 — A saúde domina a demanda. Das 32 propostas, 8 têm a Secretaria Estadual de Saúde como parceira — o dobro da segunda colocada. Depois vêm Agricultura e Abastecimento, com 4, e Desenvolvimento Econômico e Pesquisas, com 3. O restante se pulveriza entre Meio Ambiente, Segurança Pública, Educação, Cultura, Procuradoria-Geral e o Gabinete do Vice-Governador.

Fonte: lista oficial de propostas selecionadas, FAPESP

Concentração institucional dos CCDs: 14 centros na USP, 5 na Unicamp, 4 na FGV-SP, 3 em institutos da Secretaria de Agricultura
A liderança da USP é capilar: 14 centros distribuídos por nove unidades.

Recorte 2 — A concentração institucional é real, mas capilar. Quatorze dos 32 centros serão sediados em unidades da USP, espalhados por Medicina, Esalq, EACH, Farmácia, Arquitetura, Enfermagem, Odontologia de Bauru, Comunicações e Artes e as faculdades de Economia e Administração. Unicamp fica com 5, FGV-SP com 4, institutos ligados à Secretaria de Agricultura com 3, Butantan e Icesp com 2, e Unesp, UFSCar e Unifesp com 1 cada.

Fonte: contagem por instituição-sede na lista oficial

Agenda tecnológica dos novos centros: IA na descoberta de fármacos, biossensores point-of-care, analytics territorial, inteligência analítica fiscal, descarbonização e robótica
Os títulos dos centros revelam onde a tecnologia entra.

Recorte 3 — Os títulos revelam a agenda tecnológica. Aparecem inteligência artificial aplicada à avaliação no ensino superior, biossensores point-of-care para resistência antimicrobiana no SUS, robótica para reabilitação e inclusão, analytics territorial para políticas de segurança, integração de dados para descarbonização do transporte rodoviário, TV 3.0 em comunicação pública e um centro de inteligência analítica sobre nota fiscal eletrônica.

Fonte: títulos dos 32 centros aprovados

Nos CEPIDs, a liderança se concentra em instituições de peso: Instituto de Física de São Carlos e Instituto de Biociências da USP, Institut Pasteur de São Paulo, Instituto de Biologia da Unicamp e a Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, ligada à Secretaria de Saúde. Um deles, o CIAMED, aplica inteligência artificial à descoberta de medicamentos para doenças negligenciadas.

3Por que isso importa para quem não é universidade

A lista dos novos CCDs da FAPESP é um documento sobre prioridades de governo

Um edital de fomento costuma ser lido como oportunidade de captação por quem pode pleitear o recurso. Essa leitura deixa passar o essencial.

Quando oito centros nascem em torno da Secretaria de Saúde, isso informa onde haverá, nos próximos cinco anos, orçamento, dados consolidados, acesso a campo e disposição institucional para testar tecnologia. Para uma empresa que desenvolve solução de gestão hospitalar, diagnóstico ou dispositivo médico, essa informação vale mais do que o valor do edital — porque indica onde existe um interlocutor público já mobilizado e financiado.

Cada um dos novos CCDs da FAPESP permite a mesma leitura para agronegócio, energia, mobilidade e segurança pública. Cada CCD aprovado é um ponto de entrada identificável: um pesquisador responsável, uma instituição-sede e uma secretaria parceira, todos públicos.

4O ponto contra-intuitivo

O gargalo dos novos CCDs da FAPESP não é o dinheiro

Diagrama da desconexão entre ciência financiada e soluções de mercado no sistema paulista de inovação
O recurso existe. O que falta é a ponte com quem opera no mercado.

O gargalo do sistema paulista de inovação não é falta de recurso. É falta de conexão com quem está fora da universidade.

Os R$ 200 milhões dos CCDs se somam a uma contrapartida equivalente, aos CEPIDs, ao PIPE e a uma dúzia de outros programas. O dinheiro existe e é anunciado abertamente. O que raramente acontece é a empresa certa descobrir, a tempo, que um centro de pesquisa financiado está trabalhando exatamente no problema que ela resolve — ou que poderia resolver.

A participação de empresas nos CCDs, aliás, é explicitamente desejável pelo edital, embora não obrigatória como a do ente público. A porta está aberta e é pouco usada.

Em 60 segundos

  • O que foi anunciado32 CCDs com até R$ 200 milhões da FAPESP e 5 CEPIDs com até R$ 10 milhões anuais cada na fase inicial.
  • O detalhe que amplia a contacontrapartida obrigatória equivalente ao valor solicitado — o volume real mobilizado beira R$ 400 milhões.
  • Onde está a concentração14 dos 32 centros na USP, distribuídos por nove unidades; Unicamp com 5 e FGV-SP com 4.
  • Qual problema lidera a filasaúde, com 8 centros ligados à Secretaria Estadual de Saúde.
  • O que a lista realmente éum mapa público de prioridades de governo para os próximos cinco anos, não apenas um anúncio de verba.
  • O que fazer com issoler a lista por setor, identificar o centro que toca a sua operação e procurar o interlocutor — a participação de empresas é desejável no desenho do programa.

A 4 Trade Tech existe para transformar ciência em decisão de negócio.

Se algum desses centros toca o seu setor, a 4TT pode ajudar a mapear o interlocutor certo e estruturar a aproximação.

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