Em 18 de setembro de 2026, a FAPESP anunciou os novos CCDs da FAPESP: 32 propostas selecionadas na quinta chamada do Programa Centros de Ciência para o Desenvolvimento, orçamento de até R$ 200 milhões. Na mesma rodada vieram cinco novos CEPIDs, com até R$ 10 milhões anuais cada na fase inicial.
O número dos novos CCDs da FAPESP circulou rápido. O que praticamente não circulou foi a lista dos aprovados — e é nela que está a informação útil. Cada linha traz um problema público específico, a secretaria que o assumiu e o grupo de pesquisa que chegou primeiro. É um mapa de demanda do Estado de São Paulo para os próximos cinco anos, publicado abertamente e pouco lido.

1O que foi anunciado
Os novos CCDs da FAPESP e a parceria obrigatória com o poder público
Os novos CCDs da FAPESP são núcleos de pesquisa criados em parceria obrigatória com um ente público — secretaria estadual, municipal ou federal — que entra como parceiro cofinanciador. Cada projeto pode solicitar até R$ 2 milhões por ano, por até cinco anos.
Há um detalhe pouco comentado que muda a escala do programa.
As instituições participantes precisam aportar contrapartida financeira ou econômica equivalente ao valor solicitado à FAPESP. Na prática, os R$ 200 milhões anunciados são a metade da mesa: o volume total mobilizado é da ordem de R$ 400 milhões.
Os cinco CEPIDs seguem outra lógica: pesquisa de longo prazo em Ciências da Saúde, Biológicas, Agronomia e Veterinária, com financiamento de até R$ 10 milhões anuais na fase inicial de cinco anos e possibilidade de apoio por até 11 anos. Juntam-se aos 12 centros já em operação.
2A leitura que o número esconde
Três recortes da lista dizem mais do que o total

Recorte 1 — A saúde domina a demanda. Das 32 propostas, 8 têm a Secretaria Estadual de Saúde como parceira — o dobro da segunda colocada. Depois vêm Agricultura e Abastecimento, com 4, e Desenvolvimento Econômico e Pesquisas, com 3. O restante se pulveriza entre Meio Ambiente, Segurança Pública, Educação, Cultura, Procuradoria-Geral e o Gabinete do Vice-Governador.
Fonte: lista oficial de propostas selecionadas, FAPESP

Recorte 2 — A concentração institucional é real, mas capilar. Quatorze dos 32 centros serão sediados em unidades da USP, espalhados por Medicina, Esalq, EACH, Farmácia, Arquitetura, Enfermagem, Odontologia de Bauru, Comunicações e Artes e as faculdades de Economia e Administração. Unicamp fica com 5, FGV-SP com 4, institutos ligados à Secretaria de Agricultura com 3, Butantan e Icesp com 2, e Unesp, UFSCar e Unifesp com 1 cada.
Fonte: contagem por instituição-sede na lista oficial

Recorte 3 — Os títulos revelam a agenda tecnológica. Aparecem inteligência artificial aplicada à avaliação no ensino superior, biossensores point-of-care para resistência antimicrobiana no SUS, robótica para reabilitação e inclusão, analytics territorial para políticas de segurança, integração de dados para descarbonização do transporte rodoviário, TV 3.0 em comunicação pública e um centro de inteligência analítica sobre nota fiscal eletrônica.
Fonte: títulos dos 32 centros aprovados
Nos CEPIDs, a liderança se concentra em instituições de peso: Instituto de Física de São Carlos e Instituto de Biociências da USP, Institut Pasteur de São Paulo, Instituto de Biologia da Unicamp e a Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, ligada à Secretaria de Saúde. Um deles, o CIAMED, aplica inteligência artificial à descoberta de medicamentos para doenças negligenciadas.
3Por que isso importa para quem não é universidade
A lista dos novos CCDs da FAPESP é um documento sobre prioridades de governo
Um edital de fomento costuma ser lido como oportunidade de captação por quem pode pleitear o recurso. Essa leitura deixa passar o essencial.
Quando oito centros nascem em torno da Secretaria de Saúde, isso informa onde haverá, nos próximos cinco anos, orçamento, dados consolidados, acesso a campo e disposição institucional para testar tecnologia. Para uma empresa que desenvolve solução de gestão hospitalar, diagnóstico ou dispositivo médico, essa informação vale mais do que o valor do edital — porque indica onde existe um interlocutor público já mobilizado e financiado.
Cada um dos novos CCDs da FAPESP permite a mesma leitura para agronegócio, energia, mobilidade e segurança pública. Cada CCD aprovado é um ponto de entrada identificável: um pesquisador responsável, uma instituição-sede e uma secretaria parceira, todos públicos.
4O ponto contra-intuitivo
O gargalo dos novos CCDs da FAPESP não é o dinheiro

O gargalo do sistema paulista de inovação não é falta de recurso. É falta de conexão com quem está fora da universidade.
Os R$ 200 milhões dos CCDs se somam a uma contrapartida equivalente, aos CEPIDs, ao PIPE e a uma dúzia de outros programas. O dinheiro existe e é anunciado abertamente. O que raramente acontece é a empresa certa descobrir, a tempo, que um centro de pesquisa financiado está trabalhando exatamente no problema que ela resolve — ou que poderia resolver.
A participação de empresas nos CCDs, aliás, é explicitamente desejável pelo edital, embora não obrigatória como a do ente público. A porta está aberta e é pouco usada.
Em 60 segundos
- O que foi anunciado32 CCDs com até R$ 200 milhões da FAPESP e 5 CEPIDs com até R$ 10 milhões anuais cada na fase inicial.
- O detalhe que amplia a contacontrapartida obrigatória equivalente ao valor solicitado — o volume real mobilizado beira R$ 400 milhões.
- Onde está a concentração14 dos 32 centros na USP, distribuídos por nove unidades; Unicamp com 5 e FGV-SP com 4.
- Qual problema lidera a filasaúde, com 8 centros ligados à Secretaria Estadual de Saúde.
- O que a lista realmente éum mapa público de prioridades de governo para os próximos cinco anos, não apenas um anúncio de verba.
- O que fazer com issoler a lista por setor, identificar o centro que toca a sua operação e procurar o interlocutor — a participação de empresas é desejável no desenho do programa.
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Fontes
- Agência FAPESP · “FAPESP anuncia 32 novos Centros de Ciência para o Desenvolvimento”, 18 de setembro de 2026 · orçamento de até R$ 200 milhões, 32 propostas selecionadas, teto de R$ 2 milhões por ano por até cinco anos, obrigatoriedade de órgão governamental cofinanciador e contrapartida equivalente das instituições.
- FAPESP · “FAPESP anuncia 32 novos CCDs” — lista completa das propostas selecionadas · base da contagem por instituição-sede, por parceiro público e dos temas dos centros.
- FAPESP · “FAPESP anuncia cinco novos CEPIDs”, 18 de setembro de 2026 · financiamento de até R$ 10 milhões anuais na fase inicial de cinco anos, apoio por até 11 anos, os 12 CEPIDs já em operação e as instituições-sede dos cinco novos centros.



